Mnemósine Memória

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Titânide da memória e da lembrança, inventora da linguagem e das palavras. Ela representou a memorização necessária para preservar as histórias e os mitos antes da introdução da escrita. Por vezes seu nome designava uma das três musas antigas, patronas dos poetas da tradição oral, que precederam as nove musas novas conhecidas como suas filhas.

Família e Relacionamentos:

Gaia e Urano são tradicionalmente tidos como os pais de Mnemósine desde Hesíodo (Teogonia, 132/135), sendo portanto irmã, por parte de ambos, dos titãs Oceano, Coios, Crios, Hipérion, Jápeto e Cronos, e das titânides Teia, Reia, Thêmis, Febe e Tetís, todos de forma divina, mas também dos ciclópes (139/140) Brontes (Trovão), Esterópes (Relâmpago) e Arges (Clarão) e dos hecatrônquiros (147/149): Coto, Briareu e Giges.

Unida à Zeus, tornou-se mãe das Musas: Clio, Euterpe, Thalia, Melpomene, Terpsícore, Erato, Polímnia, Urânia e Calíope.

“Por Memória então enamorou-se, a bela-coma, e dela as Musas faixa-dourada lhe nasceram, nove, às quais agradam as festas e o gozo do canto” (Teogonia, 915/917)

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Citações:

Teogonia, Hesíodo (52/56):
Musas olimpíades, virgens de Zeus porta-égide. Na Piéria gerou-as, da união do Pai Cronida, Memória rainha nas colinas de Eleutera, para oblívio de males e pausa de aflições. Nove noites teve uniões com ela o sábio Zeus longe dos imortais subindo ao sagrado leito.” (Trad. Jaa Torrano)

Hino Homérico IV, a Hermes: ao ser surpreendido por Apolo depois do furto do seu gado, Hermes tenta apaziguar ao meio-irmão tocando suavemente a lira e cantando sobre os deuses imortais e começa justamente por Mnemósine, necessária para a arte que celebra e para expressar os dons de Hermes:
Em primeiro lugar entre todos os deuses exaltava com o canto Mnemosine, a mãe das Musas: a ela de fato pertencia o filho de Maia” (429-430, Trad. de Daniela Scheifler)

7ª Ode Nemeia de Píndaro (12/15):
Pois aqueles grandes atos de proezas habitam em trevas profundas, se eles carecem de canções, e sabemos apenas uma maneira de manter um espelho face aos belos feitos: se, pela graça de Mnemósine de diadema brilhante, encontra recompensa pela labuta em canção gloriosa.”

Biblioteca da História, Diodoro Sículo (5. 67. 3):
Das titânides dizem que Mnemosyne descobriu os usos do poder da razão, e que deu uma designação a cada objeto sobre nós por meio dos nomes que nós usamos para expressar o que quer que queiramos e para manter uma conversação um com o outro; embora hajam aqueles que atribuam essas descobertas a Hermes. E a essa deusa também se atribui o poder de chamar as coisas à memória e à lembrança (mneme) que os homens possuem, e é esse poder que lhe deu o nome que recebeu”

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Culto na Grécia Antiga:

As informações sobre Mnemósine nessa área estão presentes no livro Descrição da Grécia, de Pausânias, ainda sem tradução para português. Alguns dos trechos selecionados pelo site Theoi contém as seguintes informações.

Hélicon, Santuário da Montanha na Beócia: “Os primeiros a sacrificar em Hélicon às Musas e a chamar a montanha de sagrada às Musas eram, eles dizem, Ephialtes e Otos, que igualmente fundaram Askra. . . Os filhos de Aloeus sustentaram que as Musas eram três em número, e deu-lhes os nomes Melete (Prática), Mneme (Memória), e Aoide (Aeode, Canção). Mas dizem que depois Pieros), um macedônio. . . Veio a Thespiae [na Beócia] e estabeleceu nove Musas, mudando seus nomes para os presentes. . . Mimnermos [poeta épico do século 7 A.E.C.]. . . Diz no prefácio que as mais velhas Musas são as filhas de Urano, e que há outras e mais jovens Musas, as filhas de Zeus.” (trad. livre, 9.29.)

Oráculo de Trofônio, na Lebadeia, Beócia, que de acordo com as descrições, permitiria visitas ao mundo subterrâneo dos mortos:
[O suplicante] é levado pelos sacerdotes, não imediatamente ao oráculo, mas a fontes de água muito próximas uma da outra. Aqui ele deve beber água chamada do Lethe (Esquecimento), para que possa esquecer tudo o que ele tem pensado até agora, e depois bebe de outra água, a água de Mnemósine (Memória), que faz com que ele se lembre do que ele vê depois de sua descida. . . Depois de sua ascensão ao [oráculo de] Trofônio o inquiridor é novamente tomado pelas mãos pelos sacerdotes, que o colocaram sobre uma cadeira chamada a cadeira de Mnemósine (Memória), que não fica longe do santuário, e eles perguntam-lhe, enquanto está sentado lá, sobre tudo o que ele viu ou aprendeu. Depois de obterem essa informação, eles confiam-no a seus parentes. Estes o levantam, paralisado de terror e inconsciente tanto de si mesmo quanto do que o cerca, e levam-no até o edifício onde se alojou antes com Tikê (Fortuna) e o Daimon Agathon (Bom Espírito). Depois, no entanto, recuperará todas as suas faculdades, e o poder de rir voltará para ele.”

Hinos:

Hino Órfico 77:

Memória eu chamo, a consorte de Zeus, soberana
Que engendrou as Musas, divinas sagradas claras cantoras,
Longe sempre do terrível Oblívio demente [Lete]
Conservas a inteligência que em almas mortais convive,
Bem poderosa forte elevas a razão humana,
Dulcíssima vigilante recordando os pensamentos
Que cada um sempre deposita no peito,
Sem descaminhos despertando a mente em todos.
Vem, venturosa deusa, nos iniciados a memória dos mistérios despertas, sacratíssimo rito: o oblívio expedes para longe!

(Tradução Rafael Brunhara) http://primeiros-escritos.blogspot.com.br/2016/04/hino-orfico-77-memoria-mnemosine.html

 

 

Plantas de Dionísio

 

Abeto

Abeto-grego, abeto-prateado, abeto-turco ou abeto-de-Tróia
Grego: Elatê
Espécies: Abies cephalonica, A. alba, A. nordmanniana, A. equi-trojani
Descrição: Os abetos são árvores coníferas de forma de piramidal nativas das regiões montanhosas da Europa, de tamanho médio ou elevado (entre 20 e 50 metros mas que podem alcançar até 60 metros de altura), seu tronco é colunar, desprovido de ramos na parte inferior e de até 6 metros de diâmetro, seus cones altos amadurecem em torno de outubro. O suco do abeto-de-prata (um óleo parecido com terebintina, líquido obtido por destilação de resina de coníferas) foi misturado pelos gregos com vinho novo para mantê-lo. A madeira de abeto foi utilizada para a construção.
Sagrado a: Dionísio (seus devotos empunharam bastões com ponta de cone de abeto), Cibele (um abeto de prata sagrado foi decorado no centro de suas orgias da montanha), Ilítia (a goma do abeto-de-prata chamava-se menstruação de Ilítia, talvez  por ser um medicamento utilizado no parto).
Mito 1: Tirso de Dionísio. O tirso de Dionísio era um bastão em cone de abeto (ou pinha) em cima, sendo um símbolo do falo do deus.
Mito 2: Metamorfose de Átis. Átis era um jovem bonito amado pela deusa Cibele, no entanto, quando ela descobriu que ele tinha sido infiel, ela forçou-o a castrar-se e transformou-o em um abeto-de-prata. A árvore foi decorada no centro de seus rituais orgiásticos, seu cone fálico representando os membros castrados de seu amante. (Fontes: Pausanias, Ovídio)
Mito 3: Ninfas Oréades. São ninfas que habitam e protegem as montanhas, as cavernas e as grutas. No nascimento de uma ninfa da montanha, um alto abeto prateado ou carvalho surgia da terra e murchava quando ela morria (Hinos homéricos).

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Hera

Grego: Kissos
Espécie: Hedera helix
Descrição: Uma planta da família das videiras, rastejante, que floresce no outono e cujas as bagas pretas amadurecem no fim do inverno.
Sagrado para: Dionísio (guirlandas de hera foram usados pelos celebrantes das orgias do deus e a hera foi usada para decorar seus tirso pessoal)
Mito 1: Kisseis, ama de Dionísio. Depois do nascimento de Dionísio sua celestial madrasta Hera procurou destruí-lo. Assim, suas amas, as ninfas do monte Nisa, ocultaram seu berço com folhas de hera para mantê-lo com segurança escondido. Kisseis (a dama da hera) era o nome de uma dessas ninfas. (Fonte: Ovídio)
Mito 2: Korymbos. O filho de uma das cuidadoras de Dionísio. Ele era o deus do fruto da hera (em grego korymbos). (Fonte: Nonnus)

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Trepadeira

Espécie: Smilax aspera
Descrição: Uma trepadeira espinhosa de escalada com as flores verdes pálidas e as bagas vermelhas.
Sagrada para: Dionísio (guirlandas de trepadeiras usadas nas orgias do deus)
Mitologia: A ninfa Smilax foi desprezada pelo menino Krokos e transformada na videira. (Fontes: Ovídio, Plínio)
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Videira

Grego: Ampelos
Espécie: Vitis vinifera
Descrição: A uva foi amplamente cultivada na Grécia antiga para a produção de vinho.
Sagrada a: Dionísio (deus do vinho e da viticultura)
Mito 1: Dionísio e Viticultura. O deus Dionysos descobriu ou criou a primeira vinha e instruiu a humanidade as artes da viticultura e vinificação. (Fonte: vários)
Mito 2: Metamorfose de Ampelos. Um jovem sátiro amado pelo deus Dionísio. Depois que ele foi morto por um touro selvagem o deus transformou-o em uma videira. (Fonte: Nonnus)
Mito 3: Metamorfose de Ambrosia. Uma das cuidadoras de Dionísio. Quando ela foi morta pelo ímpio Licurgo, o deus a transformou em uma videira. (Fonte Athenaeus)

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Fontes:

http://www.theoi.com/Flora1.html

http://www.theoi.com/Flora2.html

https://pt.wikipedia.org

 

 

Anite da Tegea

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Anite (Ἀνύτη Τεγεᾶτις) foi uma poetisa da Tegéa na Arcádia, no Peloponeso grego, que de acordo com Pausânias (Descrição da Grécia 8.45.1), foi uma cidade foi fundada por Aleu. É considerada uma das grandes nove poetisas líricas da Grécia antiga ou uma das nove musas terrenas por Antípatro da Thessalônica (Antologia Palatina 9:26).

Obra:

Foi muito admirada por contemporâneos e gerações posteriores por seus encantadores epitáfios e epigramas. Segundo algumas fontes, ela era líder de uma escola de poesia e literatura no Peloponeso, que também incluiu o poeta Leonidas de Tarento.
Pelo menos 18 dos seus epigramas, escrito em dialeto dórico, sobreviveram na Antologia Grega ou Palatina; outros seis podem ou não ser de sua autoria. Mesmo assim, temos poemas mais completos de Anite do que qualquer outra mulher helênica, uma vez que os nove livros de Safo sobrevivem apenas em fragmentos.

Ela foi a primeira a escrever epitáfios para os animais.

Poemas

7.190
Para o seu gafanhoto, rouxinol dos campos, e a sua
cigarra das árvores, fez Miro um duplo túmulo
e o regou com lágrimas de menina: pois o cruel Hades
levou-lhe embora os dois bichinhos de estimação.

7:538

Vivo, este homem era Manes, um escravo; morto,
vale agora o mesmo que o grande Dario.

Tradução: José Paulo Paes
Fonte: Poemas da Antologia Grega ou Palatina, São Paulo: Companhia das Letras. 1995.

Possui uma das primeiras descrições vívidas conhecidas da natureza morta. Como nesse poema onde fala do templo e imagem de Afrodite à beira-mar:

9.144
Este é o local da Cípria, uma vez que é agradável para ela
olhar sempre a partir do continente em direção ao mar brilhante
de modo que ela possa evocar a boa viagem para os marinheiros.
Em torno dela o mar tremula olhando para sua imagem polida.

Tradução da versão inglesa de Marilyn B. Skinner. 

Fontes:

Poemas da Antologia Grega ou Palatina, Trad. José Paulo Paes. São Paulo: Companhia das Letras. 1995.

https://en.wikipedia.org/wiki/Anyte_of_Tegea, acesso em: 01.11.2016.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Anite_de_Tegea, acesso em: 01.11.2016.

http://www.attalus.org/poetry/anyte.html.

http://www.stoa.org/diotima/anthology/erinna.shtml.

Praxila

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“Praxila” – pintura de John William Godward (1921)

Do grego Πράξιλλα, foi uma poetisa grega do século 5 AEC. contemporânea de Telesila de Argos. É a primeira das nove grandes poetisas líricas da Grécia antiga citadas por Antípatro da Thessalônica por sua “língua imortal” (Antologia Palatina 9:26).

Biografia e Obra:

Praxila viveu em Sícion no Peloponeso, tendo escrito canções de banquetes, ditirambos, hinos e canções báquicas . Inventou um metro dactilico conhecido como praxílio. Deve ter sido bastante conhecida em sua época já que Lisipo, um famoso escultor, fez uma estátua de bronze dela e Aristófanes realizou paródias de suas poesias em duas de suas obras, que deveriam, portanto, ser conhecidas pela assempbleia do comediante. Pouco foi conservado de sua obra, apenas alguns fragmentos.

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Estatua romana que representaria Praxila

 

Seu Hino a Adônis, retrata a descida de Adônis ao Hades, onde lhe perguntam quais foram as coisas mais belas que deixara no mundo dos vivos, e ele responde:

“As melhores coisas que eu deixei foram a luz do sol, o brilho das estrelas e a face da lua, além dos pepinos, maçãs e peras em suas estações”

A inusitada inclusão das frutas no poema, fez com que o retórico Zenóbio criasse uma expressão proverbial: “Parvo como o Adônis de Praxila“.

Musas Μοῦσαι

musas

Escultura de Bertel Thorvaldsen – Apolo e a dança das Musas no Hélicon

Em Hesíodo:

De acordo com a Teogonia de Hesíodo, as Musas são divindades que habitam o monte Hélicon perto de uma fonte sagrada onde compõem danças e cantos sobre os deuses, de quem o poeta teria aprendido a história do mundo (cosmogonia) e dos deuses (teogonia) enquanto apascentava cordeiros no mesmo monte onde as deusas moravam, pedindo que ele cantasse sobre os imortais, mas que começasse e terminasse cantando sobre elas. As deusas seriam filhas legítimas de Zeus e Mnemósine (Memória) e teriam nascido todas juntas, com gosto pelo canto e pelas festas, celebrando o que é eterno, belo e aprazível. Dependendo da ocasião e desejo, também poderiam habitar o monte Olimpo, razão pela qual às vezes são chamadas Musas do Hélicon e noutras Musas do Olimpo. São elas:

  • Klio (Κλειώ): Glória (Werner, Brunhara)
  • Euterpe (Εὐτέρπη): Aprazível (Werner), Alegria (Brunhara)
  • Tália (Θάλειά): Festa (Werner, Brunhara)
  • Melpomene (Μελπομένη): Cantarina (Werner), Dançarina (Brunhara)
  • Terpsícore (Τερψιχόρη): Dançapraz (Werner), Alegra-coro (Brunhara)
  • Erato (Ἐρατώ): Saudosa (Werner), Amorosa (Brunhara)
  • Polínia (Πολύμνιά): Muitacanção (Werner), Hinária (Brunhara)
  • Urânia (Οὐρανίη): Celeste (Werner, Brunhara)
  • Calíope (Καλλιόπη): Belavoz (Werner, Brunhara)

Sobre a descendência das musas, é dito pelo poeta que “tantas quantas junto a varões mortais deitaram e, imortais, geraram filhos semelhantes a deuses” (Teogonia 967-968).

As Musas representam entidades religiosas tradicionais que conferem autoridade e precisão ao conteúdo da poesia clássica antiga como a Teogonia de Hesíodo (Christian Werner, Teogonia, p. 10), onde os primeiros 115 versos do poema compõem um proêmio onde se celebram essas divindades coletivas, respondáveis pela esfera cultural que chamamos de poesia, mas que também envolvia música e dança. Nas palavras de Werner : “Ao celebrar as Musas antes de apresentar o canto que elas propiciam, o poeta também fala da relação que há entre ele próprio e essas divindades; pois o valor (de verdade), ou seja, a autoridade do canto que apresenta depende dela. Como pode então um mortal falar de eventos pretensamente reais que não presenciou, tal como o surgimento do mundo conhecido e de todas as divindades, como dos mortais com quem elas dormiram, se não apresentar e fundamentar sua relação com certa autoridade transcendente? (…) Assim, a iniciação no canto, conduzida pelas Musas, pela qual teria passado o poeta Hesíodo (3-34), também faria parte desse contexto mítico”. (Teogonia, p. 11).

Musas (mosaico)

 

Citações Gerais:

  • Apolo, condutor do coro das musas: “Vertamos uma libação em honra às Musas, filhas de Mnemósine e ao filho de Leto, chefe das Musas” (Lírica grega arcaica, lírica popular fragmento 20).
  • Origem de cantores, liristas e citaredos: Hesíodo, Teogonia 95; Hino Homérico 25, às Musas e à Apolo.
  • Participação nos casamentos de Cadmo e Harmonia e de Peleu e Tetis: onde as Musas de diademas douradas cantaram e dançaram na montanha e em Tebas de sete portas (Píndaro, Píticas III 86-95)

 

Hinos

Hino às Musas – Teogonia

Pelas Musas heliconíades comecemos a cantar.            1
Elas têm grande e divino o monte Hélicon,
em volta da fonte violácea com pés suaves
dançam e do altar do bem forte filho de Crono.
Banharam a tenra pele no Permesso                                 5
ou na fonte do Cavalo ou no Olmo divino
e irrompendo com os pés fizeram coros
belos ardentes no ápice do Hélicon.
Daí precipitando-se ocultas por muita névoa
vão em renques noturnos lançando belíssima voz,      10
hineando Zeus porta-égide, a soberana Hera
de Argos calçada de belas sandálias,
Atena de olhos glaucos virgem de Zeus porta-égide,
o luminoso Apolo, Ártemis verte-flechas,
Posídon que sustém e treme a terra,                                 15
Têmis veneranda, Afrodite de olhos ágeis,
Hebe de áurea coroa, a bela Dione,
Aurora, o grande Sol, a Lua brilhante,
Leto, Jápeto, Crono de curvo pensar,
Terra, o grande Oceno, a Noite negra                                20
e o sagrado ser dos outros imortais sempre vivos.
Elas um dia a Hesíodo ensinaram belo canto
quando pastoreava ovelhas ao pé do Hélicon divino.
Esta palavra primeiro disseram-me as Deusas
Musas olimpíades, virgens de Zeus porta-égide:          25
“Pastores agrestes, vis infâmias e ventres só,
sabemos muitas mentiras dizer símeis aos fatos
e sabemos, se queremos, dar a ouvir revelações”.
Assim falaram as virgens do grande Zeus verídicas,
por cetro deram-me um ramo, a um loureiro viçoso   30
colhendo-o admirável,e inspiraram-me um canto
divino para que eu glorie o futuro e o passado,
impeliram-me a hinear o ser dos imortais sempre-vivos
e a elas primeiro e por último sempre cantar.
Mas por que me vem isto de carvalho e de pedra?        35
Eia!pelas musas comecemos, elas a Zeus Pai
hineando alegram o grande espírito no Olimpo,
dizendo o presente, o passado e o futuro
vozes aliando. Infatigável flui o som
das bocas, suave. Brilha o palácio do pai                         40
Zeus troante quando as vozes liriais das Deusas
espalha-se, ecoa a cabeça do Olimpo nevado
e o palácio dos imortais. Lançando voz imperecível
o ser venerando dos Deuses primeiro gloriam no canto
dês o começo: os que a Terra e o Céu amplo geraram  45
e os deles nascidos Deuses doadores de bens,
depois Zeus pai dos Deuses e dos homens,
no começo e fim do canto hineiam as Deusas
o mais forte dos Deuses e maior em poder,
e ainda o ser dos homens e dos poderosos gigantes.   50
Hineando alegram o espírito de Zeus no Olimpo
Musas olímpiades virgens de Zeus porta-égide.
Na Piéria gerou-as, da união do Pai Cronida,
Memória rainha nas colinas de Eleutera,
para oblívio dos males e pausa para aflições.                 55
Nove noites teve uniões com ela o sábio Zeus,
longe dos imortais subindo ao sagrado leito.
Quando girou o ano e retornaram as estações
com as mínguas das luas e muitos dias findaram,
ela pariu nove moças concordes que dos cantares        60
têm o desvelo no peito e não-triste ânimo,
perto do ápice altíssimo do nevoso Olimpo,
aí os seus coros luzentes e belo palácio.
Junto a elas as Graças e o Desejo têm morada
nas festas, pelas bocas amável voz lançando,                65
dançam e gloriam a partilha e os hábitos nobres
de todos os imortais, voz bem amável lançando.
Elas iam ao Olimpo exultantes com a bela voz,
imperecível dança. Em torno gritava a terra negra
ao hinearem, dos pés amável ruído erguia-se               70
ao irem ao seu pai. Ele reina no Céu
tendo consigo o trovão e o raio flamante,
venceu no poder o pai Crono, e aos imortais
bem distribuiu e indicou cada honra;
isto as Musas cantavam, tendo o palácio olímpio,       75
nove filhas nascidas do grande Zeus:
Glória, Alegria, Festa, Dançarina,
Alegra-coro, Amorosa, Hinária, Celeste
e Belavoz, que dentre todas vem à frente.
Ela é que acompanha os reis venerandos.                       80
A quem honram as virgens do grande Zeus
e dentre os reis sustentados por Zeus vêem nascer,
elas lhe vertem sobre a língua o doce orvalho,
e palavras de mel fluem da sua boca. Todas
as gentes o olham decidir as sentenças                            85
com reta justiça e ele firme falando na ágora
logo à grande discórdia cônscio põe fim,
pois os reis têm prudência quando às gentes
violadas na ágora perfazem as reparações
facilmente, a persuadir com brandas palavras.             90
Indo à assembléia, como a um Deus o propiciam
pelo doce honor e nas reuniões se distingue.
Tal das musas o sagrado dom aos homens.
Pelas Musas e pelo golpeante Apolo
há cantores e citaristas sobre a terra,                               95
e por Zeus, reis. Feliz é quem as Musas
amam, doce de sua boca flui a voz.
Se com angústia no ânimo recém-ferido
alguém aflito mirra o coração e se o cantor
servo das musas hineia a glória dos antigos                   100
e os venturosos Deuses que têm o Olimpo,
logo esquece os pesares e de nenhuma aflição
se lembra, já os desviaram os dons das Deusas.
Alegrai, filhas de Zeus, dai ardente canto,
gloriai o sagrado ser dos imortais sempre vivos,          105
os que nasceram da Terra e do Céu constelado,
os da Noite trevosa, os que o salgado Mar criou.
Dizei como no começo Deuses e Terra nasceram,
os Rios, o Mar infinito impetuoso de ondas,
os Astros brilhantes e o Céu amplo em cima.                110
Os deles nascidos deuses doadores de bens
como dividiram a opulência e repartiram as honras,
e como no começo tiveram o rugoso Olimpo.
Dizei-me isto, ó Musas que tendes o palácio olímpio,
dês o começo e quem dentre eles primeiro nasceu.     115

Tradução: J.A.A.Torrano. In: Teogonia. A origem dos Deuses. São Paulo Iluminuras, 2006)

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Hesíodo e a Musa, Gustave Moreau, 1891

Hino Homérico 25

Que pelas Musas eu comece e por Apolo e Zeus.
Pelas Musas e pelo flechicerteiro Apolo
homens aedos sobre a terra há e citaristas
e por Zeus reis. Feliz quem as Musas
amam: doce lhes flui da boca a voz.
Salve, filhas de Zeus, e honrai minha canção
Depois eu vos lembrarei também em outra canção.

Tradução: Rafael Brunharahttp://primeiros-escritos.blogspot.com.br/2009/08/que-pelas-musas-eu-comece-e-por-apolo-e.html

Canto a respeito de Apolo, rebento de Zeus, e das Musas,
Pois é por meio do arqueiro distante, de Apolo, e das Musas,
Que há sobre a terra liristas e aedos em meio aos humanos,
Mas é por Zeus que há monarcas. Feliz é aquele que as Musas
Amam e a voz que lhe flui a partir de sua boca é adoçada.
Salve, crianças de Zeus! Concedei honra à minha canção!
E eu, de vós todos, irei me lembrar e de uma outra canção!

Tradução: Leonardo Antunes. In: ANTUNES, C. Leonardo B. “26 Hinos Homéricos”. Cadernos de Literatura em Tradução. São Paulo: FFLCH/USP, 2015.

 

Hino às Musas – Proclus

Cantemos a luz que leva pelo caminho do retorno dos homens;
Glorifiquemos as nove filhas do grande Zeus,
De luminosas vozes;
Cantemos á estas virgens que,
Pela virtude das puras iniciações que
Provém dos livros, despertadores de inteligência,
Arrancam dos dolorosos sofrimentos da terra,
As almas que erram no fundo dos poços da vida,
Ensinando-as a ocupar-se com zelo
De buscar e seguir um caminho sobre as correntes
E profundas ondas do esquecimento,
E de retornar, puras, ao astro paterno,
Para este astro do qual um dia elas se separaram
Quando, enlouquecidas pelo desejo, dos grosseiros
Bens da matéria, caíram no áspero mundo das gerações.
E quanto a vós, oh Deusas,
Apaziguais o impetuoso impulso que me leva ao delírio,
E fazeis que as inteligentes palavras que transportem a um santo êxtases!
Que a raça dos homens que somente sentem medo dos Deuses
Não me aparte dos caminhos divinos,
Deslumbrantes e plenos de luminosos frutos!
Do profundo do caos,
Perdido pelo suceder em mil caminhos errados,
Atrai a minha alma que busca sem cessar a pura luz;
E, completando-a de vossa graça,
Que possui o poder de aumentar a inteligência,
Dá-lhe a graça de possuir sempre o glorioso privilégio
De pronunciar com facilidade as eloquentes palavras
Que seduzem os corações!

Tradução: Andre Nogueira. 

https://sites.google.com/site/helenismo/Home/hinario/musas-e-apolo

 

 

 

 

 

Telesila de Argos

Em grego, Τελέσιλλα, foi uma poetisa grega natural de Argos que viveu em torno do ano 510 A.E.C., sendo considerada uma das grandes nove poetisas líricas da Grécia por Antípatro da Thessalônica (Antologia Palatina 9:26) – as outras seriam Safo, Praxilla, Moiro, Anyte, Erinna, Corrina, Nossis e Myrtis. Ela foi responsável por uma inovação métrica na lírica que recebeu o seu nome.

BIOGRAFIA

Plutarco transmite uma tradição segundo o qual ela era de família nobre. Devido a uma enfermidade consultou um oráculo que lhe recomendou servir às Musas, razão pela qual dedicou-se então à poesia e à música e recobrou a saúde. Na guerra entre Argos e Esparta de 510 A.E.C. se destacou por seu valor. Como os homens de Argos haviam sido massacrados pelas tropas espartanas de Cleómenes, se vestiu de homem, armou-se e encabeçou a defesa da cidade, razão pela qual também pode ser considerada uma heroína. Em reconhecimento a este feito foi-lhe eregida uma estátua no templo de Afrodite de sua cidade e se instituiu um festival chamado  Ὑβριστικά o Ἐνδυμάτια, no qual os homens e mulheres trocavam de roupa entre si.

OBRA

Da considerável obra que ela produziu, apenas dois versos de um partênio se conservaram, composto para ser impertrepado por um coro de virgens sobre o amor de Ártemis e o rio Alfeu e citado por Hefestion de Alexandria, o gramático. As referências a ela, entretanto, também aparecem nas obras de Pausânias  (menciona que ela poemas em honra a Apolo e Ártemis), Ateneu de Náucratis (aponta uma obra a Apolo chamada “Amigo do Sol”), além de Plutarco, sendo uma artista bastante influente.

FONTES:

https://es.wikipedia.org/wiki/Telesila.

Joshua J. Mark. “Telesilla of Argos,” Ancient History Encyclopedia. Last modified March 25, 2014. http://www.ancient.eu /Telesilla_of_Argos/.